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O eclipse solar e o fenómeno da ‘caça aos óculos’ inundaram as redes sociais. E não foi por acaso

O eclipse solar e o fenómeno da ‘caça aos óculos’ inundaram as redes sociais. E não foi por acaso

Nos últimos dias, toda a gente parecia estar voltada para o mesmo: o eclipse solar e onde é que era possível arranjar óculos para assistir a este acontecimento com segurança. Se repararam bem, nas redes sociais quase não se falava de outra coisa. E isto não é apenas uma perceção vossa; é bem real e há motivos para isso.

Este eclipse, conforme já devem ter acompanhado nas notícias e sabem das vossas aulas de físico-química, foi um momento histórico para a Península Ibérica. A Lua conseguiu ‘esconder’ 100% do Sol, durante breves segundos, e isso foi visível a partir de uma zona de Bragança e de algumas zonas de Espanha.

Ou seja, somam-se aqui as palavras-chave: “único”, “raro”, “especial”, “exclusivo” e tudo o que seja relacionado. Por isso, trata-se de um tema que foi alvo de muitas notícias e destacado por vários profissionais nas redes sociais e ainda por influencers, que não quiseram perder o momento para criar conteúdo. Resultado: milhares e milhares de partilhas e repartilhas da notícia sobre o momento particular que Portugal e Espanha iam poder testemunhar e o assunto acabou por ser dos mais falados.

À medida que os meios de comunicação divulgavam informações sobre o eclipse, sublinhavam – e bem, claro – que era importante ter óculos certificados para poder olhar para o Sol no momento do eclipse, caso contrário, os danos seriam graves e irreversíveis para a visão. Acontece que este aviso foi repercutido em vários jornais e outras publicações online, acabando por contribuir para gerar ansiedade em algumas pessoas, segundo relatos, mas também serviram como o único aviso possível para tantas outras. E, se foi algo que apelou a emoções, claro que, como sabemos, foi um assunto que chegou ainda a mais pessoas através dos algoritmos.

As redes sociais têm como último objetivo a obtenção de lucro e, assim, configuram os seus feeds de forma a que os utilizadores permaneçam nelas o maior tempo possível, de acordo com declarações aos jornalistas do investigador do MediaLab e do Instituto Universitário de Lisboa José Moreno aquando do Dia da Internet Segura deste ano. Os conteúdos que apelam à emoção, indignação e exaltação “prendem mais as pessoas”, segundo sublinha, dado que é neles que “passam mais tempo e interagem mais”.

Parece uma ‘pescadinha de rabo na boca’, não é?! E ainda não chegamos ao ponto seguinte: a ‘caça aos óculos’. O uso destas palavras não foi ao acaso. Quantas vezes já não assistimos à procura em massa de um determinado item, alimento ou situação porque foi partilhado também em massa nas redes sociais como algo que seria imprescindível?

Claro que não podemos comparar a importância em causa, mas é apenas para percebermos o impacto das redes sociais… recordem um dos exemplos mais recentes e fáceis que me consigo lembrar agora: o chocolate do Dubai – esgotado em vários sítios porque toda a gente queria o mesmo.

A utilização dos óculos era, sem dúvida, obrigatória para quem queria assistir ao eclipse com segurança. A questão é que o assunto já não era o que posso ver e aprender com o eclipse e porquê que preciso dos óculos, mas, sim: “alguém sabe onde arranjar uns óculos certificados? Preciso urgentemente”. O que acabou por acontecer? Criou-se uma cascata de conteúdo sobre os óculos e sobre garantir que eram certificados e uma espécie de eco no algoritmo sobre as mesmas informações.

Além disso, o termo “escassez”, no âmbito do Marketing e Vendas, é também um assunto que tem muito que se lhe diga. Se refletirmos, quando estamos numa situação do género, na nossa mente pensamos que se algo está esgotado é porque é bom ou realmente muito necessário e útil. Então, também vamos acabar por querer ter.

Há que ter em conta ainda que, neste eclipse, como o acesso à Internet já é tão comum, foi também disponibilizada em todo o país a encomenda online dos óculos gratuitos. Não é preciso dizer que esgotaram várias vezes.

E se lá em casa ouviram os vossos pais, avós ou tios dizerem que realmente se falou bem mais sobre este eclipse do que qualquer outro, não se esqueçam de lhes lembrar do poder das redes sociais hoje.

Quase todas as organizações, empresas e meios de comunicação têm presença online (sem esquecer que muitos profissionais têm também a sua página nas redes sociais), por isso, a informação acaba sempre por chegar a mais pessoas agora do que, se calhar, há 20 anos. Já para não falar que, se mostrarmos interesse (uma vez que seja) numa determinada publicação, vamos começar a ver mais e mais conteúdos sobre aquele tema.

Imaginem a seguinte situação: há duas décadas, um jornal, televisão ou rádio divulgava uma informação. Essa notícia ia chegar a milhares de pessoas, quase de forma completamente direta. Atualmente, o mesmo órgão de comunicação dá a notícia e, além dos milhares que acompanham em direto através dos meios tradicionais, há outros tantos que recebem a informação através do feed das redes sociais e, posteriormente, partilham em mensagem privada com amigos/familiares ou na própria story ou publicação.

Vivemos num mundo de muitos contrastes. Temos muita modernização e desenvolvimento tecnológico, mas não é para todos, nem significa que sejamos pessoas melhores ou mais evoluídas e competentes por causa disso; temos muita informação, mas, por vezes, é tanta que acaba por dar origem a ainda mais desinformação; temos cada vez mais recursos para poupar tempo, mas parece que cada vez precisamos de mais tempo.

O que será que podemos aprender com este acontecimento?

Bem, o que importa é que tenham conseguido aproveitar este momento ao qual não assistimos todos os dias da melhor forma que conseguiram, tenha sido ela na rua, na praia, na montanha ou como um momento de reflexão e introspeção.

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