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Sol, comida e ADN: os temperos que deram cor à tua pele

Sol, comida e ADN: os temperos que deram cor à tua pele

Se tens andado a ver o Mundial de 2026 na televisão ou nas redes sociais, já deste conta de que nem tudo à volta do futebol são golos e festa. Há relativamente pouco tempo, durante um jogo da Liga dos Campeões, o jogador brasileiro Vinícius Júnior voltou a ser alvo de insultos racistas vindos das bancadas, e a partida chegou mesmo a ser interrompida durante alguns minutos. Já no Mundial, um antigo capitão da seleção alemã arranjou outra polémica ao chamar “futebol selvagem” ao jogo da Costa do Marfim, uma expressão que muita gente considerou ofensiva… e com razão.

Fica então a pergunta: porque é que ainda há quem julgue as pessoas pela cor da pele? Para responder, precisamos de ir a um lugar onde ninguém esperaria encontrar a resposta: o ADN dos nossos antepassados.

Muita gente pensa que a Europa foi sempre habitada por pessoas de pele clara, mas não foi. Em 2018, cientistas estudaram o ADN de um esqueleto com cerca de dez mil anos, encontrado em Inglaterra e conhecido como “Homem de Cheddar”. Os investigadores esperavam encontrar alguém parecido com um europeu atual, mas, em vez disso, o homem tinha olhos azuis, cabelo escuro e pele muito escura. Descobertas semelhantes feitas em Espanha e no Luxemburgo contam a mesma história, indicando que, durante milhares de anos, este era o aspeto mais comum entre muitos dos habitantes da Europa.

De facto, a pele clara só se tornou comum na Europa há cerca de seis mil anos, o que, em termos da história da Humanidade, é muito pouco tempo. Antes disso, durante milhares de anos, a maioria das pessoas que vivia no continente tinha pele escura, e se recuarmos ainda mais, cerca de trezentos mil anos, até aos primeiros seres humanos que viveram em África, a conclusão é a mesma: os primeiros humanos tinham pele escura. Ou seja, a pele escura não é a exceção na nossa história, é o ponto de partida de toda a humanidade.

Na realidade, tudo tem a ver com um pigmento chamado melanina, a substância que dá cor à nossa pele e que funciona como um protetor solar natural: quanto mais melanina, mais escura é a pele e maior é a proteção contra os raios do Sol. E é aqui que entra a geografia. Perto do Equador, onde o Sol brilha com muita intensidade durante todo o ano, essa proteção fazia toda a diferença, já que a melanina ajudava a proteger o ADN das células dos danos provocados pela radiação solar e evitava a destruição do folato, substância indispensável para o desenvolvimento saudável dos bebés durante a gravidez.

Assim, as pessoas com maior quantidade de melanina tinham maior probabilidade de sobreviver e de deixar descendência, e ao longo de muitas gerações essa característica tornou-se dominante nas regiões próximas do Equador. O problema é que essa mesma vantagem se transformou numa desvantagem quando alguns grupos humanos começaram a deslocar-se para regiões muito mais a norte, onde o Sol aparece pouco e é fraco durante grande parte do ano. Ali, o perigo deixou de ser o excesso de Sol e passou a ser exatamente o contrário: a sua falta.

Isto é importante porque o nosso corpo precisa da luz solar para produzir vitamina D, uma substância essencial para o crescimento dos ossos e para o bom funcionamento do sistema imunitário, que nos ajuda a combater doenças, e uma pele muito escura, ao bloquear mais radiação solar, também dificultava a produção dessa vitamina em locais onde já existia pouca luz. Por isso, ao longo de milhares de gerações, quem nascia com pele um pouco mais clara conseguia produzir mais vitamina D, adoecia menos e tinha mais descendentes, e foi assim que a pele clara se tornou cada vez mais frequente nas populações do norte da Europa.

Essa adaptação tornou-se ainda mais importante quando a agricultura substituiu grande parte da caça e da pesca, já que a carne de caça e o peixe eram ricos em vitamina D, e ao deixarem de fazer parte da alimentação de muitas populações, tornou-se ainda mais importante conseguir produzir essa vitamina através da exposição ao Sol.

Há, aliás, um exemplo que mostra bem como a alimentação e a luz solar andam sempre ligadas: os Inuítes vivem no Ártico, uma região onde há muito pouca luz solar durante grande parte do ano e, mesmo assim, muitos mantêm uma pele relativamente escura. Isto seria estranho se olhássemos apenas para a quantidade de Sol, mas faz todo o sentido quando conhecemos a sua alimentação tradicional, rica em peixe gordo e mamíferos marinhos, alimentos que fornecem grandes quantidades de vitamina D. Como já obtinham essa vitamina através da alimentação, nunca existiu pressão evolutiva suficiente para favorecer uma pele mais clara entre eles.

É precisamente esta relação entre o Sol, a alimentação e a sobrevivência que explica a enorme diversidade de tons de pele que existe no mundo, e é também por isso que a ciência concluiu que não existem fronteiras biológicas que dividam a humanidade em raças diferentes. O que existem são adaptações a ambientes diferentes, moldadas ao longo de centenas de milhares de anos, e não categorias que tornem umas pessoas superiores ou inferiores a outras.

Há um dado que costuma surpreender muita gente: é dentro do próprio continente africano que se encontra a maior diversidade genética do planeta, o que faz sentido, porque foi em África que a espécie humana passou mais tempo a evoluir. Em muitos casos, duas populações africanas são geneticamente mais diferentes entre si do que uma pessoa africana e uma pessoa europeia, o que mostra como a cor da pele é um péssimo indicador para perceber o grau de parentesco ou de semelhança entre duas pessoas.

No fundo, a cor da pele conta apenas uma pequena parte da nossa história. Fala-nos do clima onde viveram os nossos antepassados e do tipo de alimentação a que se adaptaram ao longo de milhares de anos, mas não nos diz nada sobre inteligência, coragem, talento ou valor como pessoa.

Essas características não dependem da cor da pele, dependem daquilo que cada um aprende, faz e escolhe ao longo da vida.

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