Mar alto, vírus a bordo
Quando pensamos num cruzeiro de luxo, a mente projeta resorts flutuantes, oceanos infinitos e descanso absoluto. Para um microbiologista ou um engenheiro de saúde pública, porém, a imagem é completamente diferente: um espaço fechado, cheio de gente, quase perfeito para estudar como as doenças se espalham a alta velocidade. Os episódios sanitários registados em vários navios nos últimos anos, desde simples diarreias em massa até casos raros de vírus transmitidos de pessoa para pessoa, mostram uma batalha constante entre os micróbios e as pessoas que tentam travá-los.
O culpado mais frequente dos surtos de gastroenterite a bordo é o Norovírus, especialmente as variantes do tipo GII.4. Este vírus é o pesadelo das tripulações por uma razão muito concreta: não tem membrana exterior. Vírus como o da gripe ou o SARS-CoV-2 têm uma camada de gordura à volta que o sabão destrói facilmente. O Norovírus não. A sua proteção é uma espécie de armadura proteica extremamente resistente, capaz de aguentar temperaturas desde o congelamento até cerca de 60 graus e de sobreviver em superfícies durante semanas.
Existe um equívoco comum sobre o álcool gel. O Norovírus não é completamente imune a ele, mas muitos desinfetantes alcoólicos têm eficácia limitada contra este vírus, sobretudo quando usados rapidamente ou em quantidades insuficientes. É por isso que lavar as mãos com água e sabão, com fricção real durante vários segundos, continua a ser o método mais eficaz.
A dose infecciosa é assustadoramente pequena. Bastam cerca de 18 partículas virais para infectar um adulto saudável, segundo um estudo publicado no Journal of Infectious Diseases em 2008. Entretanto, uma única pessoa doente pode libertar milhares de milhões de partículas. Um episódio de vómito funciona como uma ejeção de alta pressão que gera minúsculas gotículas carregadas de vírus, capazes de ficar suspensas no ar antes de pousarem nas superfícies ou serem respiradas por quem passa.
Os problemas a bordo não se ficam pelo estômago. Surtos de gripe fora das épocas habituais, novas variantes do SARS-CoV-2 e o Vírus Sincicial Respiratório já puseram à prova os sistemas de ventilação de vários navios. Para combater vírus que viajam em gotículas microscópicas suspensas no ar, os navios modernos usam filtros HEPA. Estes filtros retêm 99,97% das partículas com 0,3 micrómetros de diâmetro, precisamente o tamanho mais difícil de capturar. Se conseguem filtrar essas partículas, conseguem ainda melhor com partículas maiores ou menores. Como os vírus respiratórios viajam normalmente agarrados a gotículas de muco com 1 a 10 micrómetros, os filtros funcionam muito bem na prática. Nos quartos de isolamento médico cria-se ainda pressão negativa, o que faz com que o ar entre sempre de fora para dentro e nunca deixe escapar partículas contaminadas para os corredores.
Existe uma ameaça menos conhecida mas igualmente perigosa: a bactéria Legionella pneumophila. Não é um vírus, mas é um dos problemas de engenharia mais complicados de resolver num navio. Esta bactéria adora água morna parada, entre os 20 e os 50 graus, e instala-se no interior das tubagens formando biofilmes. Um biofilme é basicamente uma colónia de bactérias protegida por uma camada gelatinosa que resiste aos desinfetantes normais. A infecção acontece quando a água é pulverizada em chuveiros ou jacuzzis e alguém respira essas gotículas. Para a controlar é preciso monitorizar o pH da água constantemente, provocar choques térmicos com água acima dos 60 graus e adicionar cloro com uma dose calculada ao milímetro para não corroer as tubagens metálicas do navio.
Se o Norovírus e a Legionella são riscos conhecidos, o surto que ocorreu a bordo do navio de expedição MV Hondius surpreendeu toda a comunidade científica. O agente responsável foi o Hantavírus, um patógeno tipicamente associado a ambientes rurais, transmitido em terra quando se inalam poeiras contaminadas com urina, fezes ou saliva seca de roedores infectados. O que tornou este caso especial foi a estirpe em causa: a cepa Andes, cientificamente designada Orthohantavirus andesense. De todas as dezenas de variantes de Hantavírus existentes no planeta, a cepa Andes é a única com transmissão documentada de pessoa para pessoa, segundo um estudo publicado na revista científica Lancet Infectious Diseases em 2005. Num navio, onde as pessoas estão confinadas durante dias, o vírus encontrou um ambiente quase perfeito para se espalhar.
O modo como este vírus ataca o organismo é simultaneamente fascinante e aterrorizador. Ele invade as células que revestem os vasos sanguíneos dos pulmões e torna os capilares permeáveis, como se começassem a ganhar pequenas fugas. O plasma sanguíneo invade então os alvéolos pulmonares, os pequenos sacos onde normalmente ocorre a troca de oxigénio por dióxido de carbono. O resultado é a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus: os pulmões enchem-se com o fluido do próprio corpo e a respiração torna-se impossível. A taxa de mortalidade fica entre os 25% e os 40%, consoante o acesso a cuidados intensivos e a variante envolvida. Há porém um elemento que limita a propagação: os doentes ficam tão debilitados tão depressa que deixam praticamente de circular, o que reduz a capacidade de transmissão e facilita o trabalho das equipas de saúde.
Manter um navio saudável exige muito mais do que médicos a bordo. É preciso engenheiros mecânicos a gerir a ventilação, químicos a controlar a qualidade da água e epidemiologistas a calcular como uma doença pode saltar de pessoa em pessoa dentro daquele espaço fechado. Cada surto num navio transforma-se numa espécie de laboratório involuntário. O que os cientistas aprendem nesses ambientes fechados acaba muitas vezes por ajudar hospitais, escolas e cidades inteiras a prepararem-se melhor para futuras epidemias.
O oceano separa. O vírus, nem sempre.
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