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A química é quem decide quais os carros que sobrevivem… e quais se desfazem

A química é quem decide quais os carros que sobrevivem… e quais se desfazem

Quando vês um clássico dos anos 60 a circular em perfeito estado, estás a ver o resultado de décadas de boas decisões. Que tinta usar. Que óleo escolher. Como proteger a borracha. Cada uma dessas decisões tem uma resposta científica, e quem errou pagou com ferrugem, rachas e motores gripados.
O inimigo número um é a ferrugem. Aquela cor laranja acastanhada que devora as carroçarias antigas não é simplesmente oxidação: é uma reação eletroquímica em cadeia, onde o ferro do aço reage com o oxigénio e a humidade para formar óxidos e hidróxidos de ferro hidratados. O problema é que a ferrugem é porosa. Deixa passar mais oxigénio e humidade para o metal por baixo, acelerando o processo. É como uma ferida que se vai abrindo sozinha. Nos carros dos anos 50 e 60, a proteção resumia-se muitas vezes a uma camada de tinta fina aplicada sobre metal mal preparado. O resultado está à vista.
Os cromados tão característicos da época não eram apenas estética. Uma fina camada de crómio depositada eletricamente sobre o metal base cria uma superfície muito resistente à corrosão. Quando exposto ao ar, o crómio forma uma camada passiva de óxido que protege o metal subjacente e dificulta a progressão da corrosão. Belo e funcional ao mesmo tempo.
Hoje, os carros saem de fábrica com tratamentos muito mais sofisticados: chapas de aço galvanizado revestidas com zinco, primários epóxi e sistemas multicamada de pintura aplicados em linhas com controlo rigoroso de temperatura e humidade. Um carro moderno resiste à corrosão incomparavelmente melhor do que um clássico dos anos 60. Perde em charme. Ganha em longevidade.
Os pneus têm os seus próprios adversários. A borracha natural, extraída das seringueiras, é um polímero: uma molécula gigante formada por milhares de unidades mais pequenas ligadas em cadeia, como os elos de uma corrente microscópica. No estado natural, é pegajosa no calor e quebradiça no frio.
O processo de vulcanização, desenvolvido por Charles Goodyear em 1839, resolveu esse problema. Ao combinar calor e enxofre, criam-se pontes químicas entre as cadeias do polímero, tornando a borracha elástica, resistente e estável numa vasta gama de temperaturas.
Nos pneus antigos, essa vulcanização era menos controlada e a formulação química muito mais simples. Com décadas de exposição ao calor, ao ozono atmosférico e à radiação ultravioleta, ocorrem reações de oxidação e degradação das cadeias poliméricas que alteram gradualmente a estrutura da borracha. O resultado é um pneu que endurece, fende e deixa de ser seguro, mesmo que visualmente pareça razoável. Os pneus modernos têm aditivos antioxidantes e antiozono incorporados na formulação, o que prolonga significativamente a vida útil. Mesmo assim, qualquer pneu com mais de dez anos deve ser substituído, independentemente do aspeto exterior.
Dentro do motor, o que mantém tudo a funcionar é o óleo. A ciência do atrito, do desgaste e da lubrificação entre superfícies chama-se tribologia, e é absolutamente crítica para a sobrevivência de qualquer motor. Quando peças metálicas se movem umas contra as outras a alta velocidade, o atrito gera calor e desgaste. O óleo forma uma película microscópica entre essas superfícies, impedindo o contacto direto do metal com o metal.
A propriedade decisiva é a viscosidade, ou seja, a resistência do óleo a fluir. Muito espesso, não chega a tempo a todas as peças. Muito fino, não forma a película protetora necessária.
Os óleos minerais clássicos eram extraídos do petróleo por refinação simples e a sua viscosidade variava bastante com a temperatura: demasiado espessos no frio, demasiado finos no calor. Os óleos sintéticos modernos são produzidos por processos químicos e de refinação avançados, permitindo um controlo muito superior da composição e do comportamento reológico. A diferença na proteção do motor é substancial.
Quando visitas uma exposição de automóveis antigos, estás a ver química aplicada. Cada carro que sobreviveu é o resultado de escolhas certas sobre materiais, revestimentos e lubrificantes. Isso, para quem gosta de perceber como as coisas funcionam, é tão impressionante quanto o design das carroçarias.

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