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O astrolábio náutico

O astrolábio náutico

Imagina que estás no meio do oceano, sem costa à vista, sem internet e sem GPS. Como é que sabes onde estás? Durante séculos, os navegadores responderam a esta pergunta com um disco de metal pendurado na mão.
Esse disco chama-se astrolábio náutico.
O instrumento era feito de bronze ou latão e tinha a borda marcada com graus. Essa borda chama-se limbo e funcionava como uma régua de ângulos. No centro existia uma barra giratória, a alidada, com dois pequenos orifícios nas pontas chamados pínulas.
A ideia era simples: o navegador segurava o astrolábio pelo anel superior, deixava-o ficar na vertical pelo próprio peso e depois rodava a alidada até a luz do Sol passar pelos dois orifícios. O número indicado no limbo mostrava a que altura o Sol estava acima do horizonte.
Esse ângulo tem um nome: altitude. Com essa medição e recorrendo a tabelas astronómicas que indicavam a posição do Sol ao longo do ano, o navegador conseguia calcular a latitude do navio, ou seja, perceber se estava mais perto do equador ou de um dos pólos.
Não era magia. Era geometria.
Os navegadores portugueses do século XV tiveram um papel decisivo na adaptação deste instrumento para uso no mar. O astrolábio que existia antes era muito mais complexo e delicado, adequado para observações em terra, mas pouco prático a bordo de uma caravela constantemente agitada pelas ondas. A versão náutica foi simplificada e tornou-se mais pesada, para oscilar menos com o movimento do navio.
Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral navegaram com instrumentos deste tipo. Com a ajuda de observações astronómicas e muita matemática, os navegadores portugueses cruzaram o Atlântico, contornaram África, chegaram à Índia e abriram novas rotas marítimas.
A precisão rondava um grau de latitude, o equivalente a cerca de 110 quilómetros. Não era perfeito, mas era suficientemente bom para atravessar oceanos.
Mas o astrolábio tinha uma limitação importante: só ajudava a determinar a posição do navio de norte a sul, ou seja, a latitude. Descobrir a longitude — a posição de leste a oeste — era muito mais difícil. Para isso era necessário saber as horas com grande precisão, algo que os relógios da época não conseguiam fazer durante longas viagens marítimas.
Esse problema começou a ser resolvido no século XVIII, quando surgiram os primeiros cronómetros de marinha suficientemente precisos para manter a hora durante meses no mar.
Com instrumentos mais avançados a aparecer, o astrolábio foi sendo substituído. Primeiro pelo octante e depois pelo sextante. Mas a ideia fundamental manteve-se: observar o céu, fazer medições e usar a matemática para descobrir onde se está.
Hoje, fazemos algo semelhante com uma tecnologia muito mais sofisticada: o GPS.
Em vez de observar o Sol ou as estrelas, o teu telemóvel recebe sinais enviados por vários satélites que orbitam a Terra. O GPS mede quanto tempo esses sinais demoram a chegar ao aparelho. Com essa informação e muitos cálculos matemáticos, consegue determinar a tua posição com uma precisão de poucos metros.
A ideia de fundo é semelhante à do astrolábio: usar referências conhecidas, fazer medições e calcular onde se está. A diferença está na velocidade dos cálculos, na exatidão dos resultados e no facto de não precisares de céu limpo nem de segurar nada na mão.
Quando olhas para o mapa do teu telemóvel, estás a usar uma ideia que começou com um disco de bronze numa caravela portuguesa, algures no Atlântico, há mais de quinhentos anos.

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